O silêncio onde tudo poderia mudar

Domingo, 21 de Dezembro de 1975

O domingo amanheceu com aquele tom baço de inverno em que até o sol parece indeciso. E eu, talvez por contágio, fiquei em casa sem grandes planos, como se o mundo lá fora fosse uma porta que não me apetecia abrir. Havia uma calma estranha no ar, daquelas que parecem convidar à introspecção ou à preguiça — e eu aceitei as duas.

Passei a manhã a ler, devagar, com a sensação de que as palavras dos outros, quando bem escolhidas, têm o poder de arrumar um pouco daquilo que vai cá dentro. Não é magia, mas aproxima-se. De vez em quando levantava os olhos do livro e deixava-me ficar a olhar para a parede, como quem persegue um pensamento que nunca chega a completar-se.

A música acompanhou-me como uma sombra leal. A certa altura reparei que a música começava a mexer comigo. Não era tristeza nem alegria, era outra coisa — um chamamento leve, quase hipnótico, que me puxava para dentro das melodias como quem me diz ao ouvido aquilo que eu ainda não consigo admitir em voz alta. Talvez por isso me deixei ficar ali, preso ao som, como se cada acorde me estivesse a traduzir por dentro. E, claro, no meio do som e das páginas, ela surgia. Sempre ela. A Dila, não como acontecera, mas como poderia ter acontecido. Esse era o verdadeiro enredo do dia: imaginar finais alternativos, caminhos que nunca foram pisados, conversas que não aconteceram, coragens que na altura me faltaram.

Chama-se sonhar, eu sei. Mas naquele domingo ganhou outra forma: parecia mais um ensaio de vida, uma espécie de rascunho emocional onde tudo podia ser reescrito. Tinha saudades dela — não as admitidas, as outras, as que ficam caladas — e talvez por isso me agarrei à ideia de que nem todas as histórias são definitivas. Às vezes, basta um gesto, uma palavra, um acaso bem colocado… e o mundo muda de direcção.

O dia deslizou assim, manso, sem protagonista, sem acontecimentos dignos de nota. Mas dentro de mim houve movimento, esse tipo de movimento silencioso que não se vê mas que deixa marcas. A certa altura dei por mim a pensar que talvez a vida fosse isso mesmo: um conjunto de dias em que nada se passa, mas onde tudo se prepara.

Terminei o dia com uma última música baixinha (10cc - I'm Not In Love), como quem fecha uma janela com cuidado para não acordar ninguém. E, definitivamente, irei adormecer com uma ideia teimosa a soprar-me ao ouvido: talvez ainda haja tempo para reescrever aquilo que ficou por dizer.


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