A respiração entre encontros
Sábado, 20 de Dezembro de 1975
O sábado nasceu como quem acorda tarde e sem pressa, e eu deixei-me ir, meio arrastado, meio embalado por aquela sensação de início de férias, mas sem o alívio habitual. A manhã passou sem pressa, sem história, como se o mundo estivesse a guardar energia para qualquer coisa que eu ainda não sabia de que se tratava. E, claro, havia nela — sempre nela — aquele vulto a atravessar o pensamento, como se a Dila tivesse ganho o direito permanente de entrar e sair das minhas horas sem pedir licença.
Depois do almoço, saí de casa sem pressa, com aquele passo de quem não sabe bem para onde vai mas sabe perfeitamente o que procura. Fui até ao Bonfim, sem grande esperança de repetir o acaso de quinta-feira — o sorriso dela ainda me queimava as mãos por dentro — mas a mente, teimosa, queria tentar a sorte outra vez.
A rua estava meio adormecida, como se o frio tivesse mandado todos recolher mais cedo. Encostei-me junto da Papelaria Pirata, fingindo que esperava um colega qualquer, mas a verdade é que esperava só o destino, que às vezes gosta de brincar connosco.
Fiquei ali a ver os tróleis a passar, as janelas fechadas, as pessoas com pressa, e eu parado no meio de tudo, a sentir que a tarde avançava sem grandes promessas. Mas não me fui embora. Nunca me vou embora quando ela está em jogo — ainda que ela não esteja lá.
O tempo passou sem movimento, e quando finalmente aceitei que provavelmente não haveria reencontros hoje, senti uma pontada estranha: não era tristeza, era mais um vazio breve, aquele intervalo silencioso entre duas notas. Talvez fosse o corpo a lembrar-me que nem todos os dias têm de ser decisivos.
No regresso a casa, vinha com um pensamento persistente a bater por dentro: o que seria, afinal, esta distância que nos separava? Era a distância do impossível ou apenas o espaço entre dois passos hesitantes?
A noite caiu cedo e eu deixei-me ficar fechado no quarto, a fazer o balanço de muito pouco e, ao mesmo tempo, de tudo. Os dias andavam a preparar qualquer coisa — eu sentia-o — mas ainda não sabia se para me dar ou para me tirar.
Terminei o dia assim, meio inquieto, meio esperançado, com a sensação de que os amanhãs talvez trouxessem uma resposta. Ou outra pergunta, que no fundo dá quase no mesmo.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »