O dia dos pequenos encantos
Sexta-feira, 19 de Dezembro de 1975
Acordei com o pensamento ainda fresco do sorriso da Dila de ontem, um instante tão breve, mas que foi capaz de acender uma luz suave no meu peito. A manhã parecia dançar com uma cadência calma, cada raio de sol a tocar o chão como se me convidasse a sorrir. Senti-me leve, quase flutuando entre a realidade e a suavidade de um sonho acordado.
No liceu, cada aula foi um fio de contemplação, não pela matéria, mas simplesmente por estar vivo. Caminhei pelos corredores com uma atenção tranquila, notando os pequenos detalhes: a forma como a luz atravessava o vidro da janela da sala de aula, o sussurro distante de colegas a conversar, o cheiro do papel e da madeira antiga. Tudo parecia parte de uma coreografia silenciosa que eu, inadvertidamente, dirigia com a mente.
Ao final do dia, voltei para casa com a serenidade de quem descobriu que a vida, mesmo nas rotinas mais simples, reserva momentos de encanto inesperado. Sentei-me no meu quarto, olhando pela janela, e deixei que os pensamentos vagueassem. Pensei na Dila, nas conversas, nos risos, na simplicidade que me cativava tanto, lembranças do passado que agora voltavam à tona do baú das memórias. Era como se o mundo tivesse feito uma pausa para me permitir saborear esta felicidade discreta novamente.
Há dias que não deixam marcas no calendário, mas deixam um rasto no coração. Hoje percebi que a felicidade não precisa de grandes acontecimentos, basta que a alma se abra para o que é simples e verdadeiro. E assim, enquanto a noite desce suavemente, sinto que estar em paz comigo mesmo é o maior presente que poderia receber.
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