O Sorriso que despertou os meus sentidos
Quinta‑feira, 18 de Dezembro de 1975
A manhã arrastou-se como todas as outras, com o mesmo ritmo lento e sem nada de especial para prender a atenção. Caminhei pela casa, mexi em coisas sem propósito, comi algo que nem sequer sabia se gostava e, no fim, deixei-me levar sozinho até ao liceu. Não havia pressa, não havia entusiasmo, apenas o movimento mecânico de um corpo que cumpre rotinas.
Quando cheguei ao Bonfim, coloquei-me em frente à Papelaria Pirata, a observar a montra a fazer horas, esperando pela chegada de algum colega para seguirmos juntos para o liceu. O frio da manhã deixava o ar pesado e silencioso, e cada minuto parecia mais longo que o anterior.
Foi então que, do nada, surgiu a Dila. O inesperado da situação trouxe um sobressalto ao meu coração. Ela parou, olhou para mim, e sorriu — um sorriso leve, natural, que parecia dissolver toda a monotonia que me envolvia. Cumprimentou-me, e eu, surpreendido, mas feliz, correspondi com o mesmo gesto, quase sem saber como.
Aqueles segundos, tão breves quanto um sopro, tornaram-se densos de significado. Cada gesto parecia amplificado, cada olhar tinha um eco que fazia o coração bater mais rápido. Dila apanhou o troleicarro pouco depois, dirigindo-se para S. Pedro, mas a imagem do seu sorriso ficou comigo, insistente e viva.
No espírito, senti algo despertar — uma faísca que julgava adormecida, uma chama que acreditava ter sido soterrada pelo quotidiano. O mundo pareceu, por instantes, mais amplo, mais leve, mais possível. E percebi, novamente, que pequenas coisas podem fazer-se sentir maiores do que qualquer grande acontecimento.
Hoje seria dia como qualquer outro, não fosse ocorrer aquilo que outrora mais desejara cujo valor havia esquecido. Apenas um sorriso, um cumprimento e o despertar de algo dentro de mim que me lembrava que a vida, mesmo nos dias monótonos, ainda guarda momentos que fazem o coração acordar.
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