Quando dói, a dor é igual para todos
Quarta‑feira, 17 de Dezembro de 1975
A manhã abriu-se sem pressas, com aquele luzir baço de Dezembro que parece pedir silêncio. Saí de casa com o corpo a funcionar por hábito — vestir, comer qualquer coisa, fechar a porta — e deixei-me levar até ao liceu como quem caminha dentro de um sonho fraco, desses que não deixam rasto.
As aulas correram num fio ténue. Nada digno de grande memória: professores a repetir matéria, colegas a falar de tudo um pouco, e eu ali, a tentar ouvir dentro de mim uma razão para seguir em frente. Talvez fosse apenas um dia sem história — e, ainda assim, os dias sem história às vezes dizem mais do que os dias cheios.
Nos intervalos, enquanto olhava os outros, a ideia regressou-me: esta coisa dos amores adolescentes — quem sofre mais? As raparigas com o coração à flor da pele, ou os rapazes que fingem que nada lhes dói? É curioso: todos juram que a dor é igual, mas depois basta ouvir as conversas nos corredores para perceber que não é bem assim. Há rapazes que transformam o desgosto numa espécie de desafio, como se pudessem enganar o peito dizendo que já passaram por pior. Há raparigas que guardam tudo tão fundo que parecem fortes — até ao minuto em que já não aguentam mais.
E, no entanto… por que raio temos de medir a dor? Como se o coração tivesse unidade de medida, como se a lágrima de um valesse menos do que a do outro. No papel, a dor é a mesma. Mas na vida real cada um leva consigo o peso daquilo que é: o medo de ficar só, o orgulho ferido, a sensação de não ser suficiente. E quando tudo isso se mistura nas mãos inexperientes de um adolescente, às vezes o resultado é um terramoto.
Também se fala — demasiado — das tragédias que aparecem nos jornais. Relações que acabam mal, vidas levadas ao limite por um desgosto que se torna um sufoco. Às vezes pergunto-me porque é que alguns perdem, de repente, o pé. Será desespero? Será a convicção de que nada mais virá? Ou será apenas aquela tempestade interior que ninguém viu, porque ninguém quis reparar?
Na verdade, a adolescência transforma cada emoção num trovão. Um olhar pode ser o princípio do mundo; uma rejeição pode parecer o seu fim. E quando se acredita que tudo o que existe cabe num único amor, a ideia de o perder parece um abismo sem saída. É aí que alguns se esquecem — tragicamente — que a vida tem mais capítulos do que o que estão a viver.
Ao fim do dia, enquanto voltava para casa, deixei estas perguntas pousarem dentro de mim. E percebi uma coisa simples, crua, sem poesia: mesmo quando a estrada parece sem futuro, mesmo quando o peito dói como se tivesse sido arrancado por dentro, a vida tem sempre mais para dar. Sempre.
Os dias escuros não são o fim — são apenas a prova de que ainda estamos aqui, a sentir. E sentir, por mais que doa, é a primeira forma de saber que continuamos vivos.
Hoje foi um dia sem história…, mas talvez tenha sido um dia importante. Porque, no silêncio dele, ficou claro que a vida faz sentido — mesmo quando parece que não faz. E amanhã… bem, amanhã logo veremos.
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