Mais um dia sem passado ou futuro

Terça-feira, 16 de Dezembro de 1975

A manhã apareceu como quem não quer conversa — um fio de luz tímido, a entrar no quarto, a lembrar-me que havia mais um dia para atravessar. Levantei-me sem urgência, sem propósito, só com aquela vontade muda de cumprir o básico: respirar, existir, pôr um pé à frente do outro. Até o pequeno‑almoço soube a pouco… não pela comida, mas porque a vida, hoje, parecia temperada só com um bocadinho de nada.

Fui para o liceu num andar quase mecânico, como quem se entrega à rotina esperando que ela tenha a gentileza de lhe dar sentido. As aulas passaram diante de mim como sombras — eu ali sentado, mas com a cabeça algures, a tentar convencer-me de que o futuro é uma coisa que existe mesmo quando não o imaginamos. Nos intervalos, procurei qualquer faísca que me dissesse “segue”, mas só encontrei o silêncio dos corredores e o meu próprio cansaço.

A verdade é que, desde que ela deixou de morar nos meus planos, os dias ficaram mais leves… e mais ocos. Leves porque já não levo comigo a esperança, ocos porque também deixei cair o sonho. E assim passei a tarde: metade aluno, metade fantasma, a tentar perceber se seguir em frente é decisão ou se é só aquilo que o tempo faz por nós quando deixamos de resistir.

Quando voltei para casa, caiu sobre mim aquela espécie de paz triste dos dias sem história: nada aconteceu, nada mudou, nada prometeu vir a mudar. Comi, respirei, caminhei pela casa como quem se despede do sentido para o tentar reencontrar mais tarde. E, no meio de tudo isto, fiz o meu melhor esforço para esquecer — não por mágoa, mas por cansaço.

Talvez o futuro resolva por mim o que eu ainda não sou capaz de decidir. E talvez amanhã — quem sabe — aconteça qualquer coisa mínima, uma migalha de vida, que me empurre na direcção certa. Até lá, sigo. Mesmo sem saber para onde.


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