O intervalo entre dois passos
Segunda-feira, 15 de Dezembro de 1975
A manhã abriu-se sem alardes, como quem empurra devagar a porta de um dia igual a tantos outros. Arrastei-me pelos corredores da rotina com aquele modo automático de quem cumpre tarefas sem lhes sentir o peso — ou talvez sentindo-o demasiado. Nada de especial aconteceu, e isso, curiosamente, desgastou mais do que qualquer sobressalto. Há dias assim: lisos, baços, sem arranhões nem brilho.
Fiz o que tinha de fazer, mas sempre com a sensação de estar a caminhar sobre cinza fria. A Dila já não faz parte dos meus planos — digo isto como quem o repete mentalmente para que a verdade deixe de magoar. E, no entanto, cada pensamento meu ainda parece medir o espaço deixado por ela. Seguir em frente… palavra bonita, mas eu ainda não sei por onde é que isso se faz. Não há estrada marcada, nem seta a apontar o caminho, nem sequer aquela velha ilusão de que basta querer para acontecer.
Passei o dia a tentar perceber que espécie de futuro sobra quando alguém nos cai do mapa. Nada me ocorreu. Talvez seja esse o truque — não decidir nada, deixar que o futuro trate do assunto, como um empregado que vem arrumar o que ficou espalhado no chão. Eu limito-me a avançar um pouco, mesmo sem saber para onde.
À noite, quando o silêncio tomou conta da casa, reparei que não tinha acontecido rigorosamente nada que valesse ser contado. E, no entanto, alguma coisa mexia dentro de mim, qualquer coisa pequena, incerta, talvez o primeiro sinal de que o coração, mesmo dorido, continua a teimar em bater.
Pensei então que seguir em frente talvez não seja mais do que isto: acordar, respirar, dar o próximo passo, repetir. E esperar — esperar sempre — que um dia, sem que eu dê por isso, o caminho deixe de doer.
Assim fecho o dia. Sem respostas, mas com a sensação ténue — quase uma distracção — de que o tempo, esse velho carpinteiro, já começou a trabalhar em mim.
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