A quietude possível
Domingo, 14 de Dezembro de 1975
Acordei devagar, como se o corpo tivesse decidido que hoje não valia a pena disputar nada com o mundo. Deixei-me ficar pelo quarto, esse abrigo onde a vida me chega mais macia, e peguei no livro que me tem servido de companhia, "Mau tempo na Canal" de Vitorino Nemésio. Há dias em que ler é como respirar: necessário, simples, quase automático. Hoje foi um desses.
As horas foram passando num silêncio tão espesso que quase o consegui ouvir. Eu avançava pelas páginas, mas, de quando em quando, tropeçava nos meus próprios pensamentos — sobretudo nos que ainda trazem o rosto da Dila encostado ao futuro que eu desejava. E, sem dar por isso, deixava-me imaginar mundos que nunca chegaram a existir: encontros adiados, explicações que talvez nunca venham, caminhos onde nós dois ainda caminhávamos lado a lado. Tolos, talvez, mas meus.
A visita breve do Manel veio fazer uma pequena ondulação neste lago parado que o meu dia estava a ser. Falámos pouco, quase nada, mas a presença dele bastou para que eu regressasse à superfície por um instante. Depois foi-se embora, e eu tornei a mergulhar na calma profunda do quarto.
Voltei ao livro. Voltei a mim.
E fui pensando, com aquela sinceridade que só aparece nos domingos lentos, no futuro que me espera. Pressinto que vai ser duro — como se tivesse de atravessar um inverno inteiro antes de chegar a algum lugar mais quente. Mas, mesmo assim, algo em mim insiste em andar. É uma teimosia antiga, quase genética.
Assim termino o meu dia: sem respostas, mas com a coragem silenciosa de quem sabe que o que dói hoje talvez seja apenas o preço dos dias melhores que ainda não chegaram.
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