O murmúrio de um caminho incerto

Sábado, 13 de Dezembro de 1975

A manhã nasceu sem pressa, como se soubesse que eu não tinha destino marcado. Andei pela casa num vaivém quase silencioso, a sentir o peso leve — sim, é possível — de não ter planos, de ser apenas corpo a mexer-se porque o tempo insiste em avançar. O pequeno-almoço soube a rotina, e ainda assim havia ali um tremor discreto, como se qualquer gesto pudesse abrir uma porta inesperada.

Saí quando o relógio me pediu, sem questionar nada, rumo ao meu liceu…, mas levei comigo uma inquietação que me puxava para o outro lado da rua. O liceu feminino, Rainha Santa Isabel, erguia-se ali, tão perto, tão distante, com aquela aura de mistério que só os sítios proibidos — ou inúteis — sabem ter. Fui até lá sem grande propósito, fingindo que caminhava apenas para esticar as pernas, mas a verdade é que procurava algo. Uma sombra, uma razão, um sorriso, uma resposta a perguntas que eu nem tinha formulado.

Senti-me meio ridículo, meio livre. Quem sabe — pensei eu, num desses lampejos que a adolescência tem para nos enganar — talvez encontrasse ali um escape para seguir adiante, longe das memórias que teimam em me puxar para trás. Talvez fosse possível inventar um futuro fresco, uma história nova, uma distração bem-feita que ocupasse o lugar onde antes morava a Dila. Ou talvez fosse tudo uma tolice romântica daquelas que me assaltam quando o coração anda sem mapa.

Passeei devagar, como quem testa a água antes de mergulhar. Olhei para os portões, para as janelas, para as raparigas que passavam a correr, e por um instante deixei-me acreditar que o mundo podia mudar numa esquina.

Mas o dia, fiel ao seu hábito, não trouxe nada de extraordinário. Trouxe apenas a confirmação de que continuo a procurar — mesmo quando não sei o quê, nem onde. E talvez seja isso o mais honesto que posso dizer: caminho porque não quero ficar parado dentro do passado.

Regressei a casa ao cair da tarde, com a sensação leve de que, apesar da ausência de acontecimentos, qualquer passo dado fora do costume é já uma forma de respirar.

E sim… lá no fundo, muito no fundo, ficou a pergunta:
E se ali, naquele liceu vizinho, a vida tivesse guardado uma surpresa?

Não encontrei a resposta. Mas dei por mim a sorrir da dúvida.
Às vezes, isso basta para continuar.


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