O passo breve de um dia comum
Sexta-feira, 12 de Dezembro de 1975
A manhã começou arrastada, com aquele frio que parece querer entrar pelas mangas da roupa e acordar-nos à força. Tomei o pequeno-almoço sem pressa, a casa ainda silenciosa, cuidei dos meus livros, fiz alguns trabalhos em atraso e saí para a rua com o ar húmido a empurrar-me devagar para o dia. S. Pedro acordava em passos curtos, e eu deixei-me ir no meio deles quase sem pensar, quase só a respirar.
À tarde, já nas aulas, foi um esforço constante de procurar foco onde ele teima em não ficar. Entre explicações, cadernos e o barulho dos intervalos, tentei convencer-me de que ainda há razões para seguir em frente, mesmo quando o passado bate à porta da memória sem ser convidado. Não as encontrei todas, mas procurei-as — e, por vezes, isso já basta para não desistir.
Nada disto traz grande história, mas dentro de mim houve um movimento quase imperceptível: como se, por um momento breve, eu pudesse caminhar sem carregar tanto peso às costas. Hoje, por um instante apenas, a ideia de seguir em frente deixou de parecer impossível.
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