Ecos de um Amor Distante

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 1975

O dia acordou cinzento, com uma luz que parecia pesar sobre a cidade, reflectindo o meu próprio estado de espírito. A manhã passou-se entre livros e cadernos, mas a concentração fugia-me a cada instante, como se a presença da Dila, distante ou próxima, assombrasse os meus pensamentos. No liceu, as aulas arrastaram-se, cada minuto parecendo uma eternidade. A terceira aula foi a única em que consegui seguir o ritmo, mas mesmo assim a mente divagava, buscando memórias e imaginando futuros que já não poderiam ser.

Ao regressar, o silêncio da casa fez-se notar, e o peso das palavras não ditas sobre o que sinto pela Dila esmagava-me. À tarde, um passeio breve com o Benjamim trouxe alguma distração, mas por cada palavra dele, surgia a sombra do que perdi. Falámos de banalidades, mas cada frase levava-me de volta ao mesmo vazio, à ausência dela.

À noite, depois do jantar, a companhia de Manel foi uma tentativa de fugir de mim mesmo. Conversámos pouco, mas houve conforto na familiaridade da amizade. Quando me deitei, o coração parecia pesar mais do que o corpo. Pensei no que poderia ter sido, nos momentos que se esfumaram e na distância que agora nos separava. E enquanto a noite caía, prometi a mim mesmo que continuaria a escrever, a sentir, a recordar — como se manter viva a chama daquilo que se chama amor, mesmo quando ele parece impossível.


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