O silêncio das pequenas coisas
Quarta-feira, 10 de Dezembro de 1975
O dia arrastou-se sem pressa, daqueles em que nada parece acontecer e, ainda assim, alguma coisa mexe por dentro. As aulas foram só isso: aulas. Quadros de giz, colegas que bocejam, professores que repetem as mesmas frases de sempre. A cabeça, essa, andou noutro sítio qualquer.
De tarde, ao ir a casa do Manel, dei de caras com a irmã da Dila. Trazia o mesmo ar sereno de criança de sempre, como quem anuncia notícias simples sem se aperceber do peso que podem ter. Limitou-se a dizer que a irmã bébé fazia hoje cinco meses. Só isso. Cinco meses.
É curioso como uma frase tão pequena pode abrir uma brecha no dia. Não que me incomode a bébé — longe disso — mas porque cada mês que passa naquela casa parece lembrar-me que, entre mim e a Dila, ficou tudo suspenso num tempo que já não avança connosco. Um daqueles lembretes que não pedimos e que mesmo assim chegam, certeiros como um golpe de ar frio.
Fiquei algum tempo com o Manel, a conversar de coisas sem importância, mas ele percebeu logo que eu estava longe, distraído, a medir silêncios que não têm fita métrica. Ainda assim, acabámos a rir de uma parvoíce qualquer. Há amizades que funcionam como remédios improvisados: não curam tudo, mas aliviam o suficiente para respirarmos melhor.
No regresso a casa percebi que talvez seja isto crescer: aprender a receber notícias que parecem leves e, no entanto, nos empurram um pouco para dentro de nós mesmos. E aprender também que nem sempre precisamos de respostas — às vezes basta continuar a caminhar.
O dia terminou assim, discreto, quase invisível, mas com aquela pontinha de inquietação que nos lembra que estamos vivos, mesmo quando nada acontece.
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