As horas que me puxam pelos ombros
Terça-feira, 9 de Dezembro de 1975
Hoje acordei como quem ainda não voltou de lado nenhum. O feriado deixou-me preso num daqueles silêncios que se alojam no peito, e eu, teimoso, tentei sacudi-lo como se fosse pó de caderno velho. Mas o dia não quis saber. Abriu-se diante de mim com a mesma rotina de sempre, como se me dissesse: “Anda, Tono, não te fiques aí parado.”
Voltei às aulas. O liceu estava frio, quase hostil, como se tivesse passado a noite inteira a embirrar com o mundo. Caminhei pelos corredores a sentir-me metade de mim, a outra metade ainda enrolada nos pensamentos de ontem. O Manel olhou para mim e não precisou de perguntas. Aproximou-se com aquele sorriso que sempre denuncia que ele já sabe tudo antes de eu abrir a boca.
— Então, estás vivo? — atirou-me.
Respondi-lhe, só para não lhe dar o gosto de calar:
— Mais ou menos… mas ainda mexo.
Riu-se. Esse riso dele faz bem, como quem abre uma janela para arejar o quarto.
Durante as aulas tentei fingir que estava ali inteiro. Números, mapas, frases soltas…, mas eu sabia, no fundo sabia, que o nome dela se metia entre as linhas todas. Por mais que tentasse empurrar as lembranças para os cantos do pensamento, elas voltavam, sorrateiras, como se a Dila tivesse aprendido a morar nos intervalos do meu dia.
À tarde, fiquei a conversar com o Manuel. Fala-se sempre de tudo para evitar o que importa, mas, às tantas, lá escorreguei.
— Achas que isto há-de passar, Manel? — perguntei, sem coragem de lhe dizer o nome dela.
Ele encolheu os ombros, mas de uma maneira que me fez sentir compreendido.
— Passar, passa…, mas às vezes demora o seu tempo. E às vezes não passa tudo.
Fiquei a olhar para o chão, como se as pedras me soubessem responder melhor do que eu próprio. Há coisas que não sei. Não sei mesmo. Sei apenas que tento afastar certos sentimentos como quem fecha uma porta…, mas eles voltam sempre a espreitar pela fechadura.
Agora escrevo como quem se encosta a um amigo que não faz perguntas incómodas. O dia terminou, mas aqui dentro continua esta barafunda de medos e restos de esperança. Às vezes penso que o futuro é uma distância enorme… e outras vezes penso que basta dar um passo para lá chegar.
Hoje ainda não sei qual é a verdade. Mas estou a aprender a escutá-la devagar.
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