O turbilhão por detrás do feriado
Segunda-feira, 8 de Dezembro de 1975
Feriado nacional, mas a minha cabeça não soube disso. Acordei tarde, com aquela sensação amarga de que o dia não me pedia nada… e, por isso mesmo, me deixava entregue às voltas do coração. Por fora, parecia tudo normal: a casa silenciosa, a rua fria, o tempo suspenso como um pano estendido ao vento. Por dentro, porém, uma tempestade inteira sacudia-me como se quisesse relembrar cada detalhe que eu tanto esforço faço por esquecer.
Passei a manhã a arrastar-me entre pequenas tarefas, como quem tenta esconder um incêndio debaixo do tapete. Não resultou, claro. A memória tem uma pontaria certeira e insiste sempre em voltar ao mesmo ponto, como um pião teimoso. Dei por mim, repetidas vezes, a empurrar o pensamento para longe, para qualquer outro sítio onde não estivesse o nome dela. Mas o coração, esse brincalhão, puxava-me de volta com a mesma rapidez.
À tarde, já mais resignado, deixei-me ficar quieto, como se fizesse parte da mobília. E, no entanto, era por dentro que tudo fervilhava: dúvidas, saudades, um orgulho ferido aqui, um remorso ali, e aquela sensação absurda de que o futuro perdeu um ramo importante da sua árvore. Pode parecer exagero — e talvez seja — mas a adolescência tem este dom de transformar cada emoção numa sinfonia inteira.
O dia terminou sem história, sem aventuras, sem encontros. Só eu, sentado comigo, a tentar pôr ordem no que não tem ordem possível. Se alguém olhasse de fora, diria que nada se passou. Mas eu sei bem que, por dentro, hoje foi tudo menos feriado. Foi trabalho duro, desses que não se veem, mas que cansam como se tivéssemos corrido uma maratona num chão inclinado.
Amanhã, digo a mim mesmo, talvez amanheça mais leve. Talvez.
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