A Voz Que Fica Depois do Silêncio

Domingo, 7 de Dezembro de 1975

O dia nasceu enevoado, como se o mundo inteiro tivesse decidido respeitar o luto íntimo que eu trazia no peito. Depois do Liceu e logo a segui ao almoço encontrei-me com o Manel e caminhámos para o monte com a pressa de quem foge de si mesmo. Ele percebeu logo, claro, que havia uma qualquer coisa que eu precisava de deitar para fora. Ele consegue ler em mim o que eu ainda nem sei dizer.

Sentámo-nos na pedra grande, aquela que faz de trono improvisado para conversas sérias. E eu, talvez por medo de me desfazer sozinho, deixei cair tudo ali, aos pés dele.

Manel… isto está a matar-me.
Ele levantou os olhos devagar, como quem já está à espera do golpe.
A Dila?

Acenei. O resto saiu como uma torrente.

Eu achei que um dia… sei lá… que as coisas iam assentar. Que ela ia perceber que eu não queria nada mais do que o que já éramos. Mas agora sinto que estou sozinho a carregar tudo. E custa, sabes? Custa como o raio. Eu tinha sonhos… tinha imagens do futuro que agora parecem lixo rasgado.

Ele deixou-me falar — essa é a melhor qualidade do Manel, a paciência com alicerces.
Quando finalmente me calei, ele respirou fundo.

Olha, Tono… tu não perdeste nada que fosse teu. O que te pertence volta. O resto… é vento.
Mas eu sinto-me parvo. Preso a alguém que nem sabe metade do que eu guardo por ela.
Não és parvo. És ainda um miúdo, mas és humano. E ela… ela também é. Tu sabes lá o que vai no mundo dela.
Sei que não estou incluído no mundo dela.
Talvez não agora. — e aqui ele sorriu, aquele sorriso desalinhado que sempre me desarma — Mas há coisas mais estranhas no coração das raparigas. A Dila não é caso perdido.

E se for?
Então ganhas a liberdade. E dói, sim. Mas também ensina. E tu aprendes rápido.

Houve silêncio. Um daqueles que não aleija, mas que nos faz olhar para dentro. O vento passou por nós como se nos desse uma palmada nas costas.

Antes de nos levantarmos, ele deu-me um encontrão leve.

Não te enterres antes do tempo. Tu és feito para mais do que isto.

Voltámos devagar, cada um a ruminar o que não disse. Mas foi ao chegar a casa que a noite me apanhou pelos colarinhos.

Na solidão do quarto, o que o Manel me tinha dito ainda ecoava — mas a verdade é que o meu coração, esse teimoso, só conseguia pensar na Dila como quem olha para algo que já partiu, mas cuja forma ainda flutua no ar.

Senti de repente que o futuro que imaginei com ela — os passeios, os dias simples, o sorriso cúmplice — tudo isso se fragmentava como vidro frio. E cada estilhaço ainda reflectia a luz dela. Pior castigo não há.

Deitei-me sem sono.
A recordar o que fomos.
A sofrer pelo que já não seremos.
E, no meio da dor, perguntei ao tecto:
O que acontece ao futuro que se perde?

Ninguém respondeu, claro.
Mas eu fiquei ali, a ouvi-lo a divagar devagar dentro de mim.


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