O silêncio antes do brinde
Sábado, 6 de Dezembro de 1975
Acordei sem pressa, mas também sem vontade — aqueles dias em que o corpo se mexe por hábito e não por entusiasmo. O liceu esperava-me com o seu costumeiro arsenal de bocejos: aulas mornas, corredores arrastados, professores que falam como quem lê a ementa de um restaurante pobre. Fui ali mais para cumprir calendário do que por qualquer fome de saber.
Passei a manhã entre cadernos e distrações, a mente a fugir constantemente para lugar nenhum, como um cão vadio que corre só porque pode. E eu deixei-a correr — não vale a pena puxar demasiado a trela ao pensamento quando ele não quer obedecer.
Depois do almoço começou a azáfama doméstica: ia haver casamento de uma tia, e casamento, na nossa família, é sinónimo de duas coisas — excesso de emoção e falta de pontualidade. A casa encheu-se daquele frenesim que antecede todos os eventos importantes: pessoas a correrem de um lado para o outro como formigas desorientadas, vestidos pendurados nas portas, sapatos que afinal não combinam, o meu pai a reclamar do nó da gravata como se fosse um ataque pessoal da costureira.
Eu, meio espectador, meio prisioneiro, limitei-me a deixar-me levar pela onda. No entanto, confesso: enquanto ajustava o colarinho da camisa, uma certa melancolia assentou ao meu lado. Casamentos têm essa mania — lembram-nos daquilo que ainda não temos, daquilo que desejamos, ou pior, daquilo que tentámos esconder de nós próprios. E eu, que ando a ensaiar um novo capítulo da minha vida, senti o peso suave, mas certeiro dessa reflexão.
A cerimónia foi o costume: flores demais, lágrimas a mais, promessas que soam maiores do que a vida permite. A minha tia entrou radiante, e naquele brilho caraterístico das noivas havia qualquer coisa que me apertou o peito — uma espécie de presságio, ou de aviso, não sei bem. Enquanto toda a gente sorria, eu fiquei a pensar na estranha fragilidade dos momentos felizes. São tão bonitos que parece sempre que se vão partir.
Ao final da tarde, já com arroz nos bolsos e cansaço nas pernas, deixei-me levar para casa num silêncio doce. Revi mentalmente alguns olhares, algumas frases, pequenos gestos que passaram depressa demais.
E dei por mim a pensar que talvez a vida seja mesmo isto: dias iguais, repetidos, previsíveis… interrompidos por um instante que nos vira o coração do avesso.
Hoje não houve nenhum instante desses — mas houve a promessa subtil de que eles ainda podem acontecer. E isso, por si só, vale o dia.
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