O que se procura ao dobrar a esquina

Sexta-feira, 5 de Dezembro de 1975

A manhã trouxe aquele frio que espeta agulhas na pele, mas nem isso demoveu o Benjamim da sua mania recente: apareceu outra vez com um frasquinho suspeito, dizendo, muito seguro de si, que era cocaína. O pai farmacêutico dá-lhe um à-vontade estranho com frascos e pós — como se estivesse a mostrar um brinquedo novo e não algo capaz de dar cabo da vida a um incauto. Eu ri-me para não arrefecer o ambiente, mas por dentro só me apetecia dizer-lhe que deixasse de brincar com fogos que queimam de verdade. Não disse nada. Há batalhas que não valem a pena atacar de frente — e ele, coitado, anda sempre à procura de uma forma qualquer de ser visto, aceite, entendido.

Falamos do costume: escola, tédios, sonhos vagos. E enquanto ele gesticulava com aquele frasco como se fosse um troféu, eu percebi com um clarão rápido que a conversa dele fugia sempre para o mesmo lado quando falávamos na minha irmã Fernanda. É nesses silêncios que se descobrem paixões: não no que se diz, mas na pressa de desviar os olhos. Senti ternura por ele — aquela paixão tímida e mal-escondida de quem não sabe ainda o que há-de fazer com o coração.

Mais tarde, decidi atravessar a fronteira invisível que separa o nosso liceu do feminino. Um passo apenas e parecia que o mundo abria janelas novas. O pátio do Rainha Santa Isabel fervilhava de vozes leves, gargalhadas que pareciam vir de um outro planeta — um onde o tempo ainda não tinha ensinado o peso das coisas. Fui para lá com o pretexto de “novos horizontes emocionais”, mas na verdade era apenas uma curiosidade miúda, uma vontade de ver se ainda era capaz de sorrir por dentro sem recorrer à memória da Dila. Precisava de respirar. Ela ainda mora em mim — bem sei — mas hoje quis ver se havia mais mundo para além desse nome que me ficou gravado como um eco persistente.

Andei por lá sem plano. Olhava o movimento, as cores dos casacos, as expressões animadas das raparigas. Senti-me quase ridículo, mas vivo. É estranho como às vezes basta mudar de passeio para a alma se lembrar de que existe futuro.

À noite, já com o dia a esticar-se em cansaço, deixei-me ficar a pensar em tudo isto: o Benjamim com as suas fugas químicas e os olhos postos na Fernanda; este meu impulso de procurar ar novo no liceu vizinho; o silêncio teimoso que deixo dentro de mim quando penso na Dila.

Talvez esteja finalmente a perceber que a vida não se limita ao que perdi ou ao que não aconteceu. Há um caminho qualquer ali à frente — ainda enevoado, mas presente. E eu, no meio de todos estes pequenos caos, começo a pressentir que posso escolher para onde me inclino.

Hoje adormeço com esta sensação: não sei o que me espera, mas sei que já comecei a andar.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »