Fagulhas do Passado

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 1975

O dia nasceu cinzento, sem pressa, e parecia medir o meu humor com a mesma indiferença que o vento arrastava folhas pelo passeio. Caminhei sozinho, sentindo cada estalido sob os meus pés como se marcasse um compasso com lembranças que teimavam em surgir.

Houve momentos — pequenos flashes — em que o riso da Dila atravessava a minha mente, lembranças de quando acreditávamos que tudo podia ser eterno. Um gesto, um olhar, uma palavra trocada num tempo que agora me parece tão distante e irreversível. Cada memória acendia a chama de outrora, mas logo o frio da realidade a apagava, lembrando-me que já não há espaço para o que passou.

Passei a tarde em silêncio, vagueando pelas ruas como quem procura distrações para ocupar o vazio que o costume de estar com alguém deixou. Há uma urgência lenta em mim, um querer reencontrar o calor de antes, mas sei que é impossível agarrar o que já se perdeu. Tento olhar à minha volta, reparar nos detalhes que não têm nada a ver com ela, e encontrar no mundo algo que me faça continuar.

Quando o crepúsculo surgiu, tingindo o céu de laranja e roxo, senti uma mistura de melancolia e de alívio. A chama ainda existe, mas agora é ténue, só um lembrete de que amei e fui amado. E mesmo que esse amor se vá extinguindo, há espaço para o amanhã, para passos novos, para instantes que não conhecem sombras do passado.


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