O eco das escolhas

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 1975

Acordei com a luz a entrar pelas frestas da janela, tímida, como se pedisse licença para entrar. O silêncio da casa parecia pesado, cheio de coisas por dizer, e, por um instante, desejei que o mundo ficasse ali, parado, só para ouvir os próprios pensamentos sem pressa.

Na escola, cada passo ecoava nos corredores, lembrando-me de que cada escolha tem um peso que só mais tarde se revela. No recreio, tentei não pensar demasiado na Dila, mas ela surgia na minha mente como uma melodia que insiste em tocar, mesmo quando o mundo lá fora grita por atenção. Imagino-a sempre com o seu riso fácil, aquele que consegue iluminar até os dias mais cinzentos, e senti uma pontada de saudade perdida, como se soubesse que não voltaria a haver outro encontro. Havia, pois, chegado a nossa hora e o nosso fim.

A aula de história parecia arrastar-se, mas houve um momento em que me perdi nos detalhes de antigas decisões, guerras, pactos e promessas quebradas. Pensei que, de certa forma, tudo se repete, e que nós também carregamos a responsabilidade do que escolhemos, mesmo quando parece apenas um gesto pequeno, quase insignificante.

Depois da escola, decidi caminhar pelo Jardim do Liceu. O vento soprava fresco, e cada árvore parecia sussurrar segredos que ninguém mais ouviria. Sentei-me no local de sempre e deixei que os pensamentos flutuassem, livres, entre memórias e planos que ainda não se atreveram a concretizar-se. Pensei na Dila outra vez e no que significaria para nós, se ainda tivéssemos um futuro juntos. Talvez fosse apenas o eco das escolhas que ainda teria de fazer, pensei, ou talvez algo maior, algo que me empurrava a avançar sem saber para onde.

E, ao regressar a casa, percebi que este dia, simples e silencioso, tinha deixado marcas invisíveis, impressões que só o tempo revelará. Marcas de encontros passados, de palavras não ditas, de decisões pequenas que, no fundo, carregam o peso do mundo. 

A ausência dela, a ausência do que já fomos. E, no íntimo, talvez fosse isso que mais doía: a certeza de que a distância não era apenas física, era uma distância que já residia o coração.


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