Entre o que já não volta e o que ainda não chega

Terça-feira, 2 de Dezembro de 1975

Acordei com o mundo a fazer barulho lá fora — notícias de um funeral militar fruto da intentona falhada, mais um eco daquelas lutas que não escolhi — mas dentro de mim tudo estava suspenso, como água parada. Preparei os livros, tomei o pequeno-almoço e segui o dia no modo automático, o corpo a andar e a cabeça algures num sítio onde não havia ninguém para me chamar de volta.

Desde que a Dila se afastou, sinto-me como um corredor que perdeu a linha de chegada. Continuo a correr, claro, por hábito, porque é isso que se faz, mas já não sei para onde. Ando num limbo estranho: não dói, mas pesa; não é tristeza, mas também não é vida inteira. É como estar sentado num banco de jardim numa cidade desconhecida — ouço passos, ouço motores, mas nenhum deles é o que espero.

A rotina passou por mim sem me pedir opinião. O liceu, a tarde quebrada por notícias de confrontos, os colegas a falar de tudo um pouco, e eu ali no meio, a acenar com a cabeça como quem tenta acompanhar uma conversa que já não lhe pertence. Sinto-me dividido: metade de mim ainda vive no passado com ela, a outra metade tenta aprender a respirar sem essa presença.

À noite, quando a casa adormeceu e a televisão se calou, dei por mim a olhar para o escuro como quem procura um sinal. Nada. Só o silêncio — mas um silêncio que não me assusta. É quase um mestre paciente, a ensinar-me que há caminhos que só se encontram quando se perde o último.

E hoje, antes de me deitar, ficou-me esta ideia: talvez o vazio não seja um fim, mas o princípio tímido de outra forma de existir — uma que ainda não sei qual, mas que me começa a chamar devagar.


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