Refúgio e Companhia
Segunda-feira, 1 de Dezembro de 1975
Feriado nacional. Não houve aulas, e a manhã de António foi silenciosa, quase sagrada, dedicada a um livro que o envolveu por completo. Virou páginas e mais páginas de palavras que serviam como barreira contra memórias indesejadas, mantendo-as bem fechadas no fundo do seu pensamento. O romance transportava-o para outro tempo, outro espaço, permitindo-lhe respirar sem o peso de recordações antigas. Cada capítulo lido era um passo firme para dentro de si mesmo, num refúgio de tranquilidade e reflexão.
À tarde, o mundo real retomou o seu lugar. António encontrou-se com os amigos Manel e Benjamim, e o tempo tornou-se leve e vibrante. Jogaram cartas, riram-se dos erros uns dos outros, e entre uma vitória e outra discutiram um filme de ficção científica que passava na televisão. A discussão aqueceu o ar, dividindo crenças sobre a vida em outros planetas — uns convictos, outros cépticos. Mas nem sequer a diferença de opiniões trouxe qualquer tensão séria; pelo contrário, era um laço que os mantinha próximos, o coração do dia batendo na cadência da amizade.
O dia foi assim, simples e completo, sem dramas, sem tormentos. Ao terminar, senti um calor suave na alma. A felicidade residia, afinal, naquilo que muitas vezes passa despercebido: ter amigos com quem partilhar momentos bons ou maus, com quem rir e até discordar, e saber que, no fim de tudo, não se está sozinho.
O feriado terminou assim, com uma sensação de paz, e a certeza silenciosa de que, apesar da vida nem sempre ser fácil, há alegrias que ninguém pode tirar.
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