Refúgio e Companhia

Segunda-feira, 1 de Dezembro de 1975

Feriado nacional. Não houve aulas, e a minha manhã foi silenciosa, quase sagrada, dedicada a um livro que me envolveu por completo. Virei páginas e mais páginas de palavras que serviam como barreira contra memórias indesejadas, mantendo-as bem fechadas no fundo do meu pensamento. O romance transportou-me para outro tempo, outro espaço, permitindo-me respirar sem o peso de recordações antigas. Cada capítulo lido era um passo firme para dentro de mim mesmo, num refúgio de tranquilidade e reflexão.

À tarde, o mundo real retomou o seu lugar. Encontrei-me com o Manel e o Benjamim, e o tempo tornou-se leve e vibrante. Jogamos cartas, rimo-nos dos erros uns dos outros, e entre uma vitória e outra discutimos um filme de ficção científica que passava na televisão. A discussão aqueceu o ar, dividindo crenças sobre a vida em outros planetas, uns convictos, outros cépticos. Mas nem sequer a diferença de opiniões trouxe qualquer tensão séria, pelo contrário, era um laço que nos mantinha próximos, o coração do dia batendo na cadência da amizade.

O dia foi assim, simples e completo, sem dramas, sem tormentos. Ao terminar, senti um calor suave na alma. A felicidade residia, afinal, naquilo que muitas vezes passa despercebido, ter amigos com quem partilhar momentos bons ou maus, com quem rir e até discordar, e saber que, no fim de tudo, não se está sozinho.

O feriado terminou assim, com uma sensação de paz, e a certeza silenciosa de que, apesar da vida nem sempre ser fácil, há alegrias que ninguém pode tirar.


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