Ecos de uma memória distante
Sábado, 24 de Janeiro de 1976
O dia nasceu envolto numa luz tímida, quase pálida, como se o mundo ainda se espreguiçasse entre o sono e a vigília. Levantei-me com a sensação de que tudo se repetia, mas que cada acção carregava uma leve nuance própria, imperceptível aos outros, mas sentida por mim. O ritmo da rotina deslizou como sempre: passos silenciosos, livros arrumados, relógio a marcar o tempo que, de tão conhecido, parecia quase imaterial.
Pelo caminho encontrei a irmã da Dila, por breves instantes, apenas o suficiente para que despertasse lembranças que já repousavam em camadas de memória, como fotografias antigas guardadas no fundo de uma gaveta. Nada demais; um sorriso, um olá, mas mesmo assim trouxe-me uma sensação curiosa de ligação a algo que ficou lá atrás, numa época onde um breve instante tinha um brilho próprio.
A tarde passou sem acontecimentos marcantes, mas com o pensamento sempre a flutuar, a regressar àquela que em tempos povoou a minha mente: a Dila. Assim, do nada, surgiram sombras ou reflexos dela, como se o mundo inteiro fosse moldado por lembranças que não se dispersam. O vento, a luz, os sons, até a monotonia da rotina, traziam consigo uma espécie de diálogo silencioso entre o que foi e o que ainda permanece no íntimo do meu espírito.
Ao anoitecer, sentei-me perto da janela e deixei que o mundo exterior e o meu mundo interior se misturassem. Havia uma suavidade melancólica, uma tranquilidade nublada, onde tudo podia ser revisto ou reinventado. E, mesmo sem acontecimentos extraordinários, percebi que cada dia, mesmo na sua repetição, guarda uma pequena faísca que nos recorda de quem somos e do que permanece — presente ou ausente — no coração.
O dia terminou com esta consciência silenciosa: que, por mais simples ou comum que seja, cada momento tem o seu reflexo na memória, e que, para mim, tudo continua a orbitar em torno de quem ficou, de quem marcou, de quem não sai do pensamento.
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