Pensamento nublado...
Sexta-feira, 23 de Janeiro de 1976
O dia começou como se o tempo tivesse decidido permanecer suspenso num tom acinzentado, como se o céu se reflectisse nas minhas próprias ideias. Levantei-me cedo, mas sem pressa, sentindo o peso suave da rotina a deslizar sobre mim. Cada gesto era familiar, quase automático: preparar os livros, arrumar o quarto, olhar de relance pela janela, perceber que nada mudou desde ontem, nem desde sempre.
O mundo à minha volta seguia o seu curso sem grandes surpresas, e eu caminhava nele com um ritmo interior que oscilava entre a pacatez e a leve inquietude. As horas arrastavam-se com um murmúrio calmo, quase inaudível, e eu percebia-me a pensar no que viria a seguir, sem saber ao certo se havia algo realmente à espera. Era um estado de suspensão, em que o presente se diluía e o futuro se mantinha indefinido, como nuvens lentas a desenhar-se no horizonte da mente.
A tarde passou num silêncio quase solene, quebrado apenas pelo som distante das vozes da cidade, que não tocavam no meu estado interior. Tudo parecia à distância, como se eu observasse o mundo através de um vidro embaciado: reconhecia formas e cores, mas sem a nitidez que desejava. E talvez fosse isso, este desfoco, que me permitia sentir algo que não consigo perceber — uma espécie de espera tranquila, um espaço para os pensamentos mais leves ou mais obscuros se espalharem sem pressa.
Ao fim do dia, enquanto as sombras se alongavam lentamente, percebi que o meu coração se mantinha numa calma incerta. Havia uma suavidade melancólica, não tristeza, apenas a consciência de que a vida se constrói nas pequenas rotinas, nas repetições silenciosas, e que o amanhã poderá, ou não, trazer uma mudança. Fechei os olhos, senti o sopro morno do ar a atravessar a janela, e percebi que, mesmo em dias nublados, há uma espécie de claridade que só se revela quando se aceita o que é simples e habitual.
E assim termina este dia, sem acontecimentos grandiosos, mas pleno do seu próprio silêncio, como se cada instante respirasse devagar, lembrando-me de que o tempo não cessa, mesmo quando a vida parece descansar nas suas próprias nuvens.
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