As cores que dançavam no céu

Quinta-feira, 22 de Janeiro de 1976

Hoje o céu despertou-me com uma curiosidade impossível de ignorar. Ao abrir a janela, percebi formas vermelhas e alaranjadas a moverem-se lentamente acima das serras de S. Pedro da Cova, como se dançassem numa coreografia silenciosa. O mundo parecia suspenso por um instante, e eu sentia-me parte de algo maior, como se pudesse compreender segredos que escapam aos olhos comuns.

Enquanto observava, senti a minha mente a viajar por interpretações levadas pela minha imaginação: seriam sinais de outro mundo? Mensagens do sobrenatural? Ou apenas o capricho da luz a brincar com nuvens que se prolongavam em tons impossíveis? Cada hipótese trazia consigo uma ligeira vertigem, mas também um prazer estranho, como se cada explicação fosse um convite à imaginação, à criação de histórias que talvez ninguém mais ousasse contar.

Enquanto descia a rua em direcção à paragem do trólei, ia com os olhos no céu, quase a flutuar, esquecendo a gravidade do dia a dia. O fenómeno parecia alinhar-se com o que eu sentia por dentro: uma inquietude leve, a sensação de que tudo poderia ser mais vasto do que parece, que o mundo, mesmo tão conhecido, guarda cantos ocultos que só alguns se permitem explorar.

Já no liceu, conversei com colegas do grupo de ovnilogia a que eu pertencia, sobre este acontecimento estranho. Entre a admiração e o riso, pensamos nas infinitas possibilidades: talvez os discos coloridos fossem visitantes de outro planeta, ou talvez fossem apenas nuvens que se haviam esquecido de seguir as regras da gravidade e da cor. A imaginação dava-lhes vida própria, e nós deixamo-nos levar, sentindo uma alegria curiosa, quase infantil, por percebermos que o desconhecido pode ser fonte de encanto, e não de medo.

O dia passou com uma leveza que raramente sinto: o mundo parecia mais vasto, mais flexível, pronto a receber a minha curiosidade e a minha mente ansiosa por sinais, interpretações e sonhos. À noite, quando fechei os olhos, ainda via aquelas cores dançando sobre a cidade, como se me sussurrassem que, mesmo entre o habitual e o quotidiano, há sempre espaço para maravilhas que nos fazem sonhar.


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