Entre a névoa e a claridade
Quarta-feira, 21 de Janeiro de 1976
Hoje o mundo amanheceu ligeiramente desfocado — não por magia, mas por esta miopia teimosa que me acompanha como uma espécie de filtro entre mim e o real. Às vezes penso que vejo o mundo como quem observa um sonho meio apagado, onde as bordas das coisas se desfazem, onde as cores se misturam num suspiro lento. E, curiosamente, essa imperfeição visual parece estender-se ao que sinto cá dentro. Também aí tudo é difuso, como se o coração tivesse a sua própria névoa matinal.
Enquanto caminho, reparo que preciso de semicerrar os olhos para perceber o que está mesmo à minha frente. É quase cómico: não só vejo mal o que é físico, como por vezes também falho em ver-me verdadeiramente a mim mesmo. Talvez seja este o meu pequeno segredo — viver entre dois mundos, um real que me escapa pelas arestas e um interno que se expande sem pedir licença.
A miopia, afinal, não é só ocular. Há dias em que sinto que não enxergo bem as emoções, como se os sentimentos surgissem em sombras, e eu precisasse de adivinhar-lhes o contorno. Tento percebê-los com a mesma disciplina com que leio à noite, confiando que a intensidade da leitura e da escrita ilumine aquilo que a vista — e talvez o espírito — não alcança de imediato.
Talvez por isso a minha mente se refugie tanto nos livros: são mundos nítidos, onde cada letra tem fronteiras claras, onde o caos do coração encontra alguma ordem. E no entanto, ironia das ironias, foram essas noites intermináveis de leitura, as palavras devoradas sob a luz fraca, os cadernos preenchidos até ao limite, que acabaram por me trazer aqui — ao inevitável: usar óculos.
É quase poético: passar tanto tempo a viver num universo imaginado, para acabar obrigado a ver melhor o mundo real. Como se a vida me dissesse, com um sorriso discreto: “Basta de borrões, António. Está na hora de encarares as coisas de frente.”
E assim termina este dia, com a consciência de que a minha miopia — essa companheira silenciosa — não passa de uma ponte entre o que sonho e o que sou. Talvez os óculos, quando vierem, me ajudem a equilibrar os dois lados: ver o mundo com nitidez… sem perder a doçura da névoa onde a imaginação tantas vezes floresce.
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