Lugares Sagrados

Sábado, 27 de Março de 1976

As aulas começaram de manhã, como manda o hábito dos sábados. Acordei com aquela esperança matutina que já se tornou quase reflexo: voltar a vê-la. Não é plano, é instinto. Olhar primeiro para o mundo à procura dela, só depois para o resto.

E sim, apareceu.

Vi-a fugidiamente, de costas. Um vislumbre apenas, suficiente para confirmar que existe, que continua ali, algures no mesmo tempo que eu. Segui-a com o olhar até a perder na multidão de alunos que avançava apressada, cada um para o seu liceu, para o seu destino provisório. Ela dissolveu-se no movimento, como acontece sempre. Fica-me a imagem incompleta, mas verdadeira.

À tarde, não resisti. O impulso foi mais forte do que a razão. Voltei aos lugares onde já fui muito feliz. Não por nostalgia ingénua, mas por necessidade. Há espaços que guardam melhor as memórias do que nós próprios.

Caminhei devagar, quase com respeito. Cada lugar, cada recanto, cada sombra conhecida. Para mim, são agora lugares sagrados. Não no sentido religioso, mas no sentido íntimo: ali fomos verdadeiros. Ali sentamo-nos, eu e a Dila, em confidências longas, em conversas que pareciam não precisar de fim. Palavras que hoje já não sei repetir, mas que continuam gravadas no chão, nas árvores, no silêncio.

Sentei-me onde costumávamos sentar-nos. Fechei os olhos por instantes. Saboreei cada momento recuperado. Não com dor, mas com uma espécie de gratidão tranquila. O tempo levou-nos dali, mas não apagou o que fomos.

Ao regressar, percebi que estes lugares já não me prendem. Acolhem-me. São memória viva, não armadilha. E isso é novo. Talvez seja sinal de que começo, devagar, a aceitar que algumas histórias não continuam — permanecem.

Fecho o dia assim, em paz frágil, mas real. Com a certeza de que houve amor suficiente para transformar simples lugares em santuários. E isso ninguém me tira.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »