A Mesma Hora do Mundo

Domingo, 28 de Março de 1976

Domingo devia ser dia de descanso. Do corpo e da alma. Mas cedo aprendi que o corpo é escravo fiel daquilo que a alma decide. E hoje, a minha alma não quis ficar quieta.

Retomei os passeios pelas redondezas da casa da Dila. Não lhes chamo perseguição, nem espera — são apenas trajectos repetidos pela necessidade de sentir proximidade. Caminhos que os pés conhecem de cor, mas que o coração insiste em refazer, como se cada passo pudesse mudar o desfecho.

O Manel e o Benjamim estiveram comigo. Continuam a ser os apoiantes silenciosos das minhas decisões, mesmo quando não as compreendem totalmente. Não fazem perguntas inúteis. Acompanham. Às vezes, isso é tudo o que se pode pedir a uma amizade.

A busca não era por palavras, nem por encontros declarados. Bastava um contacto breve, ou até apenas a visão. A minha atenção estava afinada como uma bússola antiga, sempre apontada ao mesmo norte. Tudo em mim se orientava para ela, mesmo quando fingia casualidade.

Passei pelos nossos lugares sagrados de encontro. Esses espaços onde o tempo já foi generoso connosco. Hoje estavam vazios. Silenciosos. Não aconteceu nada. Nenhuma aparição, nenhum acaso milagroso. Apenas o espaço e a memória a coexistirem.

E, no entanto, não voltei derrotado. Houve uma consolação tranquila a instalar-se pelo caminho de regresso: existimos no mesmo tempo. Respiramos o mesmo ar. Não estamos assim tão longe um do outro. Às vezes, isso chega para sustentar um dia inteiro.

Fecho este domingo com essa certeza simples. Não vi a Dila. Não falei com ela. Mas senti-a próxima, como se a distância fosse apenas geográfica e não essencial. E enquanto for assim, continuo a caminhar.


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