Estado de Graça
Segunda-feira, 29 de Março de 1976
Hoje o universo pareceu conspirar a meu favor. Não com acontecimentos grandiosos, mas com uma paz rara. Os burburinhos da mente acalmaram. As convulsões do coração sossegaram. Como se alguém tivesse pousado uma mão invisível sobre mim e dito: agora, respira.
A manhã acordou sorridente. Não foi o sol apenas — fui eu. Levantei-me leve, sem urgências interiores. A rotina voltou, sim, mas uma rotina boa, limpa, quase generosa. Senti como se o espírito tivesse sido lavado, passado por água clara, e agora se encontrasse num estado de graça simples e honesto.
Estudei toda a manhã. Com atenção verdadeira. As ideias entravam sem resistência, ficavam, faziam sentido. Há dias em que a cabeça colabora. Hoje foi um desses dias. Não forcei nada. Limitei-me a acompanhar o fluxo.
A tarde correu sobre rodas, sem percalços, sem sobressaltos. Tudo no seu lugar. Tudo a funcionar. Não a vi. E, estranhamente, isso não doeu. Senti-a. Sabia que estava algures, não muito longe. Que talvez percorresse caminhos semelhantes aos meus, ainda que em sentidos diferentes. Havia uma espécie de sintonia silenciosa, como se os ecos das batidas do seu coração chegassem até mim sem ruído.
Não precisei de provas. Bastou-me a sensação. Às vezes, o amor também descansa.
Hoje não houve busca, nem espera, nem ansiedade. Houve apenas esta serenidade boa, esta paz comigo mesmo que não exige explicações. Um dia simples. Um dia inteiro. Um dia suficiente.
Fecho estas linhas com gratidão. Se todos os dias não podem ser assim, que pelo menos saibamos reconhecer quando o são. Hoje, soube.
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