O Tempo Sorri

Terça-feira, 30 de Março de 1976

Mantém-se este ar de graça, discreto mas firme, como se tivesse vindo para ficar pelo menos mais um dia. Até o tempo decidiu alinhar: amanheceu com modos de Verão, luz aberta, calor suave, céu sem urgências. Um dia que não empurra, convida.

A manhã passou sem grandes afazeres. Fiz o que era preciso, nada mais. Houve espaço entre as coisas, e isso fez toda a diferença. Caminhei devagar, pensei devagar. Quando o dia anda pachorrentamente, parece que nos dá licença para existir sem justificações.

À tarde, o liceu decorreu sem grandes atropelos. As aulas sucederam-se com a previsibilidade tranquila de quem não exige esforço extra. Estive atento o suficiente, presente o bastante. Não me perdi em excesso nem me fechei em demasia.

Deixei a mente divagar. Não como fuga, mas como passeio. Entre as rotinas conhecidas — corredores, vozes, cadernos — surgiam pensamentos colecionadores de memórias inesquecíveis. Não escolhi quais. Vieram sozinhas. Pequenos fragmentos de tempos bons, olhares antigos, risos guardados. Não doeram. Aqueceram.

Não a vi hoje. E, mais uma vez, isso não perturbou este equilíbrio raro. Ela existe algures, sei-o. E isso basta para que o pensamento a inclua sem a reclamar.

O dia fechou-se com a mesma calma com que abriu. Sem conclusões, sem inquietações. Apenas esta sensação boa de continuidade, como se por momentos eu estivesse exactamente onde devia estar.

Há dias assim. Poucos, talvez. Mas quando chegam, reconhecem-se. Hoje foi um deles.



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