O futuro não foge
Quarta-feira, 31 de Março de 1976
O dia nasceu sem promessas, como tantos outros. Nem sol em excesso, nem chuva que justificasse desculpas. Um dia exacto. Desses que não pedem nada e também não oferecem grande coisa. E talvez por isso mesmo tenham importância.
De manhã, a casa estava silenciosa, mas não em paz. O silêncio tinha peso, como se cada divisão guardasse palavras por dizer. Comi sem pressa, mais por hábito do que por fome. O relógio marcava as horas com aquela insistência absurda, como se quisesse lembrar-me que o tempo não espera por ninguém, muito menos por adolescentes confusos.
De tarde, as aulas. As mesmas salas, os mesmos rostos, as mesmas cadeiras desconfortáveis. Tudo igual e, no entanto, nada exactamente no mesmo sítio. Há dias em que estou presente apenas no corpo. A cabeça vai noutro comboio, noutra linha férrea, a atravessar paisagens onde ela aparece sem ser chamada. A Dila não esteve ali, mas esteve. Basta isso.
Ouvi professores, copiei apontamentos, respondi quando fui chamado. Cumpri. Cumprir é uma arte menor, mas necessária. Entre um intervalo e outro, observei pessoas. Há quem ria alto demais, talvez para não pensar. Há quem fale pouco, talvez porque pensa demais. Não sei bem onde me encaixo. Talvez no meio, esse território indefinido onde quase todos fingem estar seguros.
Regressei a casa com aquela sensação de cansaço que não vem do corpo. Lanchei. Sempre o lanche, esse ritual que parece segurar o mundo no sítio. Depois, deixei-me ficar, a olhar pela janela, sem realmente olhar. Pensei no que não aconteceu, no que podia acontecer, e naquele estranho intervalo onde a vida parece suspensa à espera de coragem.
À noite, escrevo. Escrever é a única forma honesta que conheço de estar comigo mesmo. No papel não preciso de parecer forte, nem decidido, nem adulto. Posso ser só isto: um rapaz a tentar perceber o que sente, tropeçando nos próprios pensamentos, mas a avançar.
O dia não foi grande coisa. E está tudo bem. Nem todos os dias têm de ser memoráveis. Alguns existem apenas para nos levar ao seguinte. Amanhã logo se vê. O futuro não foge. Espera, paciente, como quem sabe que acabaremos por lá chegar.
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