O mundo numa cadeira de barbeiro

Segunda-feira, 31 de Maio de 1976 

Depois de um domingo vivido em paz comigo mesmo e com o mundo, a segunda-feira apresentou-se como aquilo que verdadeiramente é: um recomeço. Um aviso simples e quase pedagógico — cada dia pode trazer tudo, desde que o espírito não se feche à chave. Mantive-o aberto. E o dia respondeu.

A manhã decorreu serena. Fui ao barbeiro, esse lugar onde o cabelo cai e as certezas também. Enquanto a tesoura trabalhava, o resto do espaço fervilhava. O barbeiro e os clientes habituais davam voz à terra. Falava-se de política com a convicção de quem resolve o país entre dois cortes à escovinha. Falava-se de religião com a mesma paixão. Uns defendiam a separação total da Igreja da sociedade, outros garantiam que num mundo comunista não havia lugar para padres nem para batinas. Houve ainda quem apelasse ao consenso possível entre o padre e o presidente da junta, que andam de candeias às avessas como se tivessem saído directamente das páginas de Dom Camilo e Peppone. Faltava apenas a praça italiana; o resto estava lá todo.

Foi soberbo aquele tempo passado naquele pequeno cubículo que funciona como templo laico da sociedade são-pedrense. Ali discute-se tudo, resolve-se pouco, mas percebe-se muito. Saí de lá mais leve de cabelo e mais pesado de ideias — um bom negócio.

O resto da manhã foi entregue ao estudo, sem dramas nem distracções. Apenas o necessário. À tarde, aulas. Passaram sem história, o que às vezes é uma história em si mesma.

À noite fui ao café com o meu pai. Pelo caminho cruzei-me com os irmãos da Dila. Nada aconteceu, mas não era preciso. Foi apenas um pequeno lembrete, desses que não doem nem alegram em excesso: a vida continua, mesmo quando parece não dizer nada. E isso, afinal, também é dizer muito.


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