Um dia na minha própria companhia
Domingo, 30 de Maio de 1976
Os dias anteriores tinham-me dado tempo livre em abundância, mas hoje decidi quebrar o hábito. Em vez da rotina previsível, escolhi a solidão consciente. Saí cedo e subi até ao Monte, sem pressa e sem testemunhas. Levei comigo um livro e a firme intenção de estar apenas comigo — coisa rara e, afinal, preciosa.
Sentei-me depois na relva, à sombra generosa de um carvalho que, pelo porte, devia já ter visto muita vida passar. Abri A Morgadinha dos Canaviais e deixei que Júlio Dinis tomasse o leme. Acompanhei o primo Henrique na sua viagem difícil até Alvapenha, feita por montes e vales, como então se fazia. Primeiro o comboio, até onde a linha consentia, depois a mala-posta, os cavalos, e finalmente o interior profundo do Minho. Dois dias de caminho. Um mundo inteiro entre partidas e chegadas. Uma viagem soberba, sem exagero nenhum.
A certa altura fechei o livro. Deitei-me na relva, fechei os olhos e fiz a minha própria travessia. Vi-me nesses caminhos antigos, senti o cansaço do corpo, o balanço dos animais, o silêncio largo das serras. A imaginação fez o resto, com uma facilidade quase insolente. É espantoso como ela nos leva onde o corpo não pode ir e nos faz sentir coisas que nunca vivemos, mas que, de algum modo, reconhecemos.
O dia passou assim, sem ruído, sem interrupções, sem visitas indesejadas da memória. Estar comigo não foi um exercício de solidão, foi um encontro. E percebi, com uma clareza tranquila, que um dia passado na minha própria companhia pode ser, afinal, um dia muito bem passado.
Às vezes, chega.
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