O céu entra pelo quarto

Sábado, 29 de Maio de 1976

Foi mais um dia normal. E foi isso que o tornou bom. Calmo, pacífico, sem sobressaltos nem exigências inúteis. Um dia que não pediu explicações.

A manhã passou-se em distracção e entretenimento com o Manel e o Benjamim, enquanto nos dirigíamos para o liceu. Conversas soltas, risos sem motivo especial, aquela leveza própria de quem ainda não sente o peso do tempo. As aulas deixaram-se distrair pelas horas — ou talvez tenha sido eu a distrair-me delas — e quando dei por isso já tinham acabado. Voltámos juntos para casa, como tantas outras vezes, sem urgência nem pressa.

De tarde, o calor veranil insistiu. O ar parecia parado, espesso, quase preguiçoso. Saí com o meu pai para irmos ver uma sessão de cinema. Artes marciais, claro — como se houvesse outra alternativa. O entusiasmo foi meu, mas não ficou só comigo. Contagiou-o. E como já é hábito, à saída, comprou-me mais um livro e uma revista de Karaté. Prenda simples, mas certeira. Ele conhece-me melhor do que às vezes parece.

À noite, recolhi-me ao meu quarto. Janela aberta, na esperança de que o calor se resolvesse a sair sozinho. Não saiu, mas trouxe companhia. Deixei-me ficar a ouvir os ruídos da noite — distantes, quase tímidos — e a olhar um céu vivamente estrelado, desses que parecem lembrar-nos que há sempre algo maior a acontecer, mesmo quando nada acontece.

Foi assim que o dia terminou.
Sem moral da história.
Mas com o céu a entrar-me pelo quarto dentro.


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