Entre a sombra e a pressa

Sexta-feira, 28 de Maio de 1976

Mais um dia. Mais uma oportunidade de não forçar nada e deixar que o presente se explique sozinho. Nem sempre fala alto, mas hoje deu sinais suficientes.

A manhã passou-se em revisão de matéria, com o Manel a fazer-me companhia até à hora de almoço. Estudar assim tem outro sabor: menos solitário, mais humano. As palavras fluíram, as dúvidas esclareceram-se, e o tempo cumpriu a sua função sem resistências. Nada de extraordinário, mas tudo no sítio certo.

A tarde chegou abafada, com um calor fora de época que parecia ter sugado a energia a toda a gente. A euforia habitual dos estudantes evaporou-se, transformada numa pasmaceira geral. Nos jardins do liceu, corpos estendidos à sombra, mochilas a servir de almofada, conversas em modo económico. O Verão, quando chega cedo demais, também sabe cansar.

Ao fim do dia fui com o Benjamim para a Academia. Como de costume, sentámo-nos num muro à entrada, a “fazer horas” antes dos treinos — esse ritual silencioso de quem espera sem reclamar. Foi então que surgiram umas raparigas decididas a chamar a nossa atenção. Sorrisos, movimentos calculados, olhares que não se perdem por acaso. Tentaram. Conseguiram, até certo ponto. Mas havia treino, e a disciplina falou mais alto. Não nos podíamos atrasar.

Quando saímos, lá estavam elas outra vez, cheias de sorrisos e, quem sabe, de intenções. Mas a pressa de apanhar o trólei foi mais forte. A vida, às vezes, escolhe por nós — e não pede desculpa.

Cheguei a casa, jantei, li um pouco e fiquei a pensar naquela estranha forma de agir daquelas raparigas junto da Academia. Não por vaidade, mas por curiosidade. Há encontros que não chegam a acontecer, mas mesmo assim deixam rasto.

Talvez seja isso crescer: aprender a notar…
… e seguir caminho na mesma.


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