Aprender a ficar em paz
Quinta-feira, 27 de Maio de 1976
Este dia, como os que o antecederam, não veio trazer novidades estrondosas. Veio ensinar. E isso, no fundo, é mais raro. Estou a aprender um caminho novo, ou talvez antigo, para uma normalidade que já não assusta. Uma normalidade habitável.
A manhã passou como uma refeição completa: nada em excesso, nada em falta. Estudo acompanhado de música, esse equilíbrio subtil entre concentração e abrigo emocional. Não houve pressa nem dispersão. A paz voltou ao meu espírito sem fazer alarde, instalou-se como quem sempre ali pertenceu.
A tarde foi curta de aulas. Passou sem ruído, sem atrito, sem perturbar o ritmo que eu trazia bem afinado desde cedo. Nada a acrescentar, nada a retirar. Apenas continuidade — e isso, por si só, já é vitória.
Regressei a casa e mantive o tom baixo do dia. Estudei mais um pouco, ouvi música, e depois deixei que um livro assumisse o comando. A leitura embalou-me devagar, como uma maré mansa, até que o sono surgiu sem luta, sem pensamentos a reclamar atenção.
Foi um dia simples. Mas simples no bom sentido — aquele que não empobrece, antes limpa.
Se isto é a nova normalidade, então começo a aceitá-la. E, quem diria, até a apreciar.
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