O calor que ensina a respirar


Quarta-feira, 26 de Maio de 1976

O Verão sorriu hoje sem pedir licença. Não foi ainda aquele riso aberto das férias, mas um ensaio geral, um aviso claro de que já não falta muito. O ar tinha outra densidade, mais leve, quase cúmplice.

A manhã foi passada a estudar, o que, convenhamos, é sempre um bom sinal quando vem depois de dias de apatia. Sentei-me com uma disciplina tranquila, sem castigos interiores nem promessas exageradas. Estudei porque fazia sentido. Tudo estava mais claro, mais sóbrio, como se a cabeça tivesse sido arejada durante a noite. Quando assim é, o estudo deixa de ser obrigação e passa a ser alinhamento.

De tarde, vieram as aulas, os amigos, as pausas pelo meio — esse território intermédio onde nada de extraordinário acontece, mas tudo conta. As conversas soltas, os risos breves, o cansaço aceitável. Tudo foi salutar. Tudo me soube bem, como uma refeição simples num dia quente.

À noite, o dia fechou-se com chave de ouro discreto. Um passeio nocturno com o meu pai, até perto do mar. O calor ainda agarrado à pele, o cheiro salgado no ar, poucas palavras — não por falta delas, mas porque não eram precisas. O mar tem esse poder: cala o supérfluo e deixa ficar o essencial.

Foi um dia passado sem história.
Mas cheio delas, se alguém souber escutar.

E amanhã… amanhã o Verão pode voltar a sorrir. Ou não. Mas eu já sei reconhecer quando ele está a chegar.


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