Um dia simples

Terça-feira, 25 de Maio de 1976

Acordei como quem abre a janela sem medo do que entra. Não havia nuvens no céu, nem dentro de mim. O sol instalara-se com descaramento, desses que anunciam o Verão antes do calendário dar autorização. E eu deixei-me ir, leve, quase distraído de mim próprio.

A manhã foi de recolhimento útil. Com a música a servir de fundo — não protagonista, apenas companhia fiel — sentei-me a estudar as disciplinas que reclamavam atenção urgente. Não houve fugas, nem devaneios, nem aquela tentação antiga de adiar tudo para amanhã. Estudei como quem arruma a casa: sem entusiasmo excessivo, mas com sentido de necessidade. O tempo passou sem pedir licença, e quando dei por ela a manhã já se tinha despedido.

De tarde, a rotina ganhou movimento. A viagem para o liceu, feita na companhia dos meus amigos, teve o sabor simples das coisas repetidas que ainda não cansam. Conversas soltas, risos breves, silêncios confortáveis. As aulas correram sem sobressaltos, quase cúmplices — como se também elas soubessem que eu precisava de recuperar terreno, de colar pedaços de tempo perdidos. Saí de lá com a sensação rara de dever cumprido, essa sensação que não faz barulho, mas pesa bem.

O fim da tarde trouxe aquilo que mais prezo: sossego. Um sossego limpo, sem explicações. Peguei num livro e deixei-me desaparecer dentro das páginas, como quem entra num rio e aceita a corrente. As horas passaram sem darem conta de si, e eu também não dei conta delas.

Foi um dia simples. E isso, por vezes, é o mais difícil de alcançar. Nenhuma epifania, nenhum drama, nenhum sobressalto. Apenas a vida a acontecer sem tropeçar. Amanhã logo se verá. Hoje, bastou-me assim.


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