Sintonizado com o universo

Segunda-feira, 24 de Maio de 1976

Um novo dia. Um novo despertar. Outro ânimo. Outra disposição. Acordei com a estranha sensação de que algo tinha mudado durante a noite, mesmo sem saber dizer o quê. Não foi entusiasmo, nem euforia — foi disponibilidade. Como se eu tivesse, finalmente, aberto a porta por dentro.

Para mim, o dia despontava com um interesse renovado. Ir para o liceu, ter aulas e, mesmo que remota, a possibilidade de encontrar a Dila bastavam para dar sentido à manhã. Não era a expectativa de um acontecimento, mas a simples ideia de que ela existia no mesmo espaço, no mesmo tempo. Isso chegava para que o mundo se tornasse habitável.

A manhã decorreu como uma canção nova que entra no ouvido sem aviso. Primeiro estranha-se, depois reconhece-se o ritmo e, quando se dá conta, já se vai a cantarolar baixinho. Tudo aconteceu como sempre — e, no entanto, nada pesou. Os gestos fluíram sem resistência, o tempo deixou de arrastar os pés.

A viagem de trólei, tantas vezes cinzenta, parecia agora banhada por uma luz diferente. As pessoas tinham rostos mais vivos, os movimentos menos bruscos, as vozes menos duras. Talvez estivessem iguais a todos os outros dias. Talvez fosse eu que estava diferente. Às vezes a mudança é só um ajuste no olhar.

O Bonfim surgiu como um lugar suspenso, quase sagrado. O caminho para o liceu, já tantas vezes percorrido, ganhou novamente significado. Foi ali que despontaram emoções que ainda hoje persistem, discretas mas firmes. Passar por aquele espaço é lembrar que o coração também aprende, mesmo quando dói.

As aulas, outrora monótonas, pareceram dádivas inesperadas. Ouvir, compreender, estar presente deixou de ser um esforço. O mundo parecia, finalmente, sintonizado comigo. Ou talvez eu tivesse encontrado o tom certo, a frequência justa para existir sem atrito.

Não vi a Dila. Não a procurei. E, curiosamente, isso não me inquietou. Senti que estávamos no mesmo universo, a respirar o mesmo dia, sob o mesmo céu. Às vezes a proximidade não se mede em metros, mas em sentido.

Hoje aprendi isto: nem sempre é preciso que algo aconteça para que tudo faça sentido. Basta sentir que se pertence. Hoje, pertenci. E isso bastou.


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