Um novo despertar

Domingo, 23 de Maio de 1976

Hoje foi um dia diferente. E eu bem precisava disso, como quem precisa de ar sem saber que estava a sufocar.

O meu pai perguntou-me, com a naturalidade de quem não faz planos filosóficos, se queria dar um passeio de motorizada com ele. Disse que sim antes que a cabeça tivesse tempo de estragar a ideia. Foi salutar. O vento na cara limpou-me os pensamentos, não os organizou — varreu-os. Às vezes é isso que faz falta.

Passamos a Serra da Pia ainda cedo. O sol nasceu por detrás das serras, devagar, sem pressa de impressionar. Foi sublime. Não grandioso, não teatral — apenas certo. Senti-me renascer, como se alguém tivesse aberto uma janela dentro de mim.

Sem o saber, o meu pai obrigou-me a sair da casca onde me tinha fechado. Não fez perguntas, não deu conselhos. Levou-me a andar. Talvez fosse o destino. Ou talvez fosse só um pai atento. Às vezes não há diferença.

No regresso a casa senti-me outro. Não diferente do mundo, mas novamente dentro dele. Antes do almoço, deixei-me ficar com a poesia popular de António Aleixo. Aquelas palavras simples, afiadas, honestas. Riem-se da vida sem a negar. Fez-me bem.

Tudo parecia encaminhar-se para um dia excelente. E foi.

De tarde, fui a uma festa nas minas de S. Pedro. Um evento partidário, carregado de significado para a vila, com gente, vozes, música, convicções. Vida colectiva, chão comum, pertença.

A noite fechou com uma peça de teatro, vista em família. Sentei-me ali, atento, presente, sem a cabeça a fugir para longe. Destino ou não, senti-me desperto. Vivo outra vez. E isso, hoje, chegou para justificar o dia inteiro.


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