Sábado, 22 de Maio de 1976
De manhã fui para o liceu com o Benjamim e o Manuel. O caminho foi o de sempre, mas eu não ia exactamente igual por dentro. Logo ao primeiro tempo tive feriado e foi esse acaso — pequeno, banal — que mudou o dia inteiro.
Graças a ele, vi a Odília.
Estava muito séria. Caminhava como quem atravessa um lugar onde não está. Os olhos distantes, o corpo presente por obrigação. Dava a sensação de que sonhava acordada, de que o pensamento lhe ia a muitas léguas dali, talvez para um sítio onde nem eu, nem ninguém, a podia alcançar.
Fiquei parado a observá-la. Não fiz sinal, não me aproximei. Apenas olhei. Houve ali qualquer coisa de profundamente silencioso e verdadeiro. Ela seguiu, entrou no liceu, e desapareceu.
E nesse exacto momento, algo em mim clareou.
Foi estranho. Mas senti — com uma certeza limpa — que afinal eu tinha um lugar. Não no mundo inteiro, não na multidão, não na normalidade ruidosa dos outros. Tinha um lugar nela. Ou, pelo menos, na direcção dela.
Ontem tudo eram perguntas. Hoje não surgiram respostas — mas já não fizeram falta. O que havia era uma calma nova, discreta, quase tímida. Uma compreensão simples: não preciso de forçar nada. Não preciso de fugir, nem de desistir, nem de me explicar.
Preciso apenas de paciência.
Talvez crescer não seja deixar de doer, mas aprender a esperar sem se perder. Hoje, pela primeira vez em dias, senti isso. E por agora, chega.
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