Sexta-feira, 21 de Maio de 1976
Este dia arrastou-se desde o primeiro instante. As perguntas mantiveram-se intactas, como móveis pesados que ninguém consegue deslocar. O desânimo não foi violento, foi persistente — e isso cansa mais. Houve um desencontro constante comigo mesmo, como se eu estivesse sempre a chegar atrasado ao que sinto.
Tudo foi rotineiro. Os gestos repetiram-se sem alma, as horas passaram por obrigação. Cumpri o dia, mas não o vivi. Cada tarefa parecia exigir um esforço desproporcionado, como se o simples acto de existir já fosse demasiado.
Não houve vislumbre de um nascer de sol brilhante. Nenhum céu azul a prometer futuro. Apenas um cinzento espesso, sem drama, sem poesia — só peso. Um dia sem sentido claro, sem esperança visível, sem sinal de que algo pudesse mudar no instante seguinte.
Hoje não houve revelações. Não houve consolo. Houve apenas a continuidade de um cansaço que não se resolve dormindo. Um dia que não feriu, mas também não cuidou. Um dia suspenso, à espera de algo que não chegou.
E talvez seja isso que mais custa: perceber que há dias assim. Dias que não anunciam nada. Dias que existem apenas para serem atravessados. Amanhã logo se verá. Hoje, não havia mais para ver.
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