Um mundo à parte

Quinta-feira, 20 de Maio de 1976

Hoje tive a certeza desconfortável de que não habito o mesmo planeta que o resto do mundo para lá da porta do meu quarto. Eles parecem mover-se com naturalidade, falar a língua certa, aceitar as regras sem tropeçar nelas. Eu não. Estou sempre um passo ao lado, como se tivesse falhado uma instrução básica à nascença.

Procuro respostas e encontro apenas mais perguntas. Abro uma porta, surgem corredores. Olho para o futuro e não vejo nada — nem medo, nem esperança, apenas nevoeiro. Não há sinais, não há mapas, não há promessas. Só esta sensação persistente de estar deslocado.

Pergunto-me se vivo numa ilusão. Se o problema é o mundo ou sou eu. Porque não consigo libertar-me destes pensamentos que rodam sem descanso, como um moinho sem vento? Porque não sou igual aos outros? Porque tudo me pesa mais, tudo me demora mais, tudo me atravessa mais fundo?

As perguntas acumulam-se e não há respostas. Ninguém responde porque ninguém ouve. Ninguém ouve porque ninguém entende. E talvez ninguém entenda porque isto não se vê por fora. Não deixa marcas visíveis. É um cansaço silencioso, um desajuste íntimo.

Será isto crescer? Será isto tornar-me adulto? Se for, é um processo duro, quase cruel. Ninguém avisa que crescer dói assim. Fala-se de responsabilidades, de escolhas, de futuro — mas não se fala desta solidão estranha de começar a pensar sozinho, sem rede, sem garantias.

Hoje senti-me só, mas não vazio. Há uma diferença. Há inquietação. Há perguntas. Há consciência. E talvez seja isso o começo de alguma coisa, mesmo que agora pareça apenas um peso. Se crescer é isto, então não é bonito — mas é real. E, goste-se ou não, é por aqui que se passa.


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