Dogmas e névoa

Quarta-feira, 19 de Maio de 1976

O dia começou como todos os outros, e isso já começa a cansar antes mesmo de começar. Os mesmos passos, os mesmos livros, o mesmo peso nos ombros que não vem do corpo, vem de dentro. Cumpri a manhã quase por inércia, como quem repete um gesto aprendido sem já saber porquê.

A viagem para o liceu e as aulas prolongaram esse cinzento interior. Nada correu mal, mas nada correu bem. Tudo aconteceu, simplesmente. O dia passou por mim sem pedir licença e sem deixar marca.

No regresso a casa, um pequeno abalo: vi a irmã da Dila. Foi apenas um instante, um vislumbre, mas bastou para me lembrar de algo desconfortável — há vida para além da minha. Há pessoas a viver, a decidir, a seguir caminhos que não passam por este cansaço circular onde me encontro. Pessoas, talvez, bem mais interessantes do que eu.

Já em casa, quase por acaso, encontrei um livro sobre as Testemunhas de Jeová. Finalmente senti curiosidade. Um fio novo a puxar-me o pensamento. Talvez ali encontrasse respostas. Talvez percebesse as atitudes da Dila, o comportamento da família, aquela mudança brusca, quase radical. Ou, pelo menos, um indício.

Li. Procurei. Insisti.

Não encontrei respostas nem mistério. Apenas dogmas. Mais dogmas. Regras fechadas, certezas absolutas, fronteiras bem desenhadas entre o que é permitido e o que é condenado. No fundo, nada muito diferente do que já conheço na igreja católica. Mudam os nomes, muda o tom, mas a estrutura é a mesma. A mesma rigidez, o mesmo medo disfarçado de fé.

Fiquei mais confuso do que esclarecido. Afinal, o que estará por detrás de uma decisão tão radical? Terá partido realmente da Dila? Ou será apenas uma escolha que lhe foi entregue já feita, embrulhada em convicções alheias?

A dúvida permanece. E hoje, curiosamente, foi isso que trouxe alguma diferença ao dia: não uma resposta, mas uma pergunta que se recusa a calar. Às vezes é pouco. Outras vezes, é tudo o que há.


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