Cansaço sem ruído

Terça-feira, 18 de Maio de 1976

Hoje acordei já cansado do próprio dia. Não aconteceu nada — e isso, curiosamente, pesou mais do que um dia cheio. Os dias começam a parecer cópias mal tiradas uns dos outros, sem contraste, sem relevo.

Passei o tempo a fazer o que é suposto fazer. Estudar, cumprir horários, existir dentro de uma rotina que já não me diz nada. Ler, que tantas vezes foi abrigo, tornou-se um esforço inútil: os olhos percorrem as linhas, mas o pensamento fica para trás, parado, alheio. As palavras entram e saem sem deixar rasto.

A música, essa velha companheira, hoje não me chamou. As canções passaram-me ao lado como pessoas na rua que não se conhecem. Nem conforto, nem irritação — apenas indiferença. E isso assusta mais do que o silêncio.

Escrever no diário também custou. Cada frase pareceu puxada a ferros, como se a vontade tivesse ficado noutro lugar qualquer. Ainda assim, sentei-me aqui. Não por disciplina, mas por necessidade. Este momento no fim do dia continua a ser importante. Não para contar nada ao mundo, mas para não me perder de mim.

Escrevo porque, mesmo sem história, este sou eu. Escrevo porque falar comigo, ainda que em voz baixa, é a única coisa que não posso abandonar. O resto pode esperar. Amanhã será outro dia igual — ou talvez não. Mas isso logo se verá.


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