Trânsito humano

Segunda-feira, 17 de Maio de 1976

A manhã passou como tantas outras: livros abertos, páginas viradas, o lápis a cumprir o seu dever. A música, fiel companheira, ajudou a calar o mundo de fora e, ironicamente, também o de dentro. Quando a música entra, tudo o resto baixa o tom. É um luxo silencioso.

De tarde, aulas. O relógio a cumprir horários, os gestos repetidos, as palavras já conhecidas. Nada de novo, nada de surpreendente. Apenas o dia a cumprir-se.

O regresso a casa foi longo, arrastado pelo caos do trânsito. Mas esse atraso deu-me algo que a pressa costuma roubar: tempo para olhar. Pessoas anónimas, cada uma com o seu destino já alinhado, algumas apressadas, outras quase a correr, como se a vida tivesse prazo curto e estivesse prestes a expirar na próxima esquina.

Pelas janelas do trólei, nas casas antigas, viam-se portadas abertas, deixando entrar os últimos raios de sol, como quem não quer perder o fecho do dia. Dentro do trólei havia um silêncio entrecortado por um burburinho surdo, íntimo, como se todos partilhassem segredos que não eram para ser ouvidos.

Jovens e idosos misturavam-se no mesmo espaço, salpicos humanos numa tela já gasta. Em cada paragem, saídas rápidas, entradas quase agressivas. Empurrões, cotoveladas, urgência. Ninguém quer ficar de fora. Há sempre pressa de chegar.

Em S. Caetano, uma avalanche de mulheres saiu da fábrica de tecidos. Umas jovens, outras nem por isso. Atropelavam-se, insultavam-se, resmungavam. As portas fecharam-se e, como por magia, o tom mudou: gargalhadas, palavras ásperas sem maldade, cansaço transformado em humor rude. Vida real, sem verniz.

A viagem seguiu, conhecida, previsível. Os mesmos rostos, os mesmos lugares, a mesma coreografia diária que se repete ao longo do ano como um ritual que ninguém questiona.

No fim, o silêncio regressou. Cada um desceu na sua paragem, levando consigo a promessa muda de que amanhã fará exactamente o mesmo caminho, com os mesmos passos, à mesma hora.

A rotina não tem glamour. Mas observa bem: ela sabe contar histórias — só fala baixo.


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