Solidão e sombras

Domingo, 16 de Maio de 1976 

Hoje a casa ficou grande demais.
Grande e fria.
A família saiu, os amigos não vieram, e eu fiquei — não por escolha heróica, mas por simples ausência de alternativa. Quando ninguém aparece, o silêncio deixa de ser pausa e passa a ser peso.

Foi um dia de sombras. Não daquelas dramáticas, com trovões e gestos largos, mas sombras baixas, rasteiras, que se infiltram devagar no pensamento e se sentam connosco no sofá. Não disseram nada. Não foi preciso. Bastaram-se.

A leitura salvou-me. Sempre ela. Um livro aberto é uma porta que não faz perguntas. Entrei e fiquei algum tempo fora de mim, o que hoje foi uma bênção. As palavras dos outros serviram-me de abrigo, como um casaco emprestado que não aquece muito, mas evita o pior do frio.

A música veio depois, como costuma vir. E entre todas, uma decidiu instalar-se sem pedir licença:

When I Need You, de Leo Sayer.

"I just close my eyes and I'm with you"... A letra era avassaladora e tocou-me profundamente.

A canção tocou uma vez… e ficou. Ficou na cabeça, no peito, no ar da casa. Repetiu-se sozinha, como se tivesse encontrado em mim terreno fértil.

Houve momentos de sufoco. A letra colava-se aos pensamentos, insistente, quase cruel na sua doçura. Não consegui sacudi-la. Também não tentei muito. Às vezes a tristeza quer ser sentida até ao fim, como quem termina uma frase mesmo sabendo que dói.

Senti-me só.
E triste.
Duas palavras simples, sem metáforas nem ornamentos. Foi assim, nu e directo. Hoje não houve aprendizagem nem epifania. Houve apenas a constatação silenciosa de que a solidão existe — e sabe exactamente onde nos encontrar.

Amanhã será outro dia, dizem.
Hoje não foi.
Hoje foi isto.


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