Encantamento fugaz

Sábado, 15 de Maio de 1976

Acordei com uma nova disposição, como se o próprio ar da manhã tivesse decidido conspirar a meu favor. Havia uma leveza invisível que me envolvia, uma corrente de silêncio feliz que parecia escorrer pelos cantos da casa, anunciando um dia diferente. A viagem para o Bonfim revelou-se surpreendentemente leve; eu, o Manel e o Benjamim ríamos de tudo, deixávamo-nos levar por um humor que parecia brotar do nada, espontâneo e contagiante. Cada gesto trivial transformava-se em motivo de riso, cada palavra, uma faísca que acendia a nossa alegria, criando uma harmonia que quase se podia tocar.

Então, um som abafado atrás de nós chamou-me a atenção. Voltei-me discretamente e lá estava ela, a Dila, tentando conter um sorriso que, por vezes, teimava em escapar. O seu olhar, ligeiramente curioso, parecia dançar com a nossa energia. Aquela proximidade, a forma como reagia aos nossos gracejos, preenchia-me a alma de uma maneira que eu não conseguia perceber; era uma mistura de admiração, medo e desejo de permanecer naquele instante para sempre. A viagem ganhou contornos mágicos, e o tempo parecia ceder àquela encantação silenciosa, como se o mundo tivesse feito uma pausa para nos permitir saborear aquela presença. Mas, sem aviso, a magia dissipou-se, deixando apenas a lembrança de algo intenso e breve, um sonho demasiado delicado para agarrar.

À tarde, os meus amigos convenceram-me a sair para um pequeno passeio de bicicleta. O percurso era previsível, conhecido por cada curva e cada sombra de árvore, mas cada instante parecia mais vívido com a expectativa de talvez cruzar novamente com ela. Por prudência — ou talvez por receio de complicações — evitei passar junto à sua casa. A distância tornou-se, paradoxalmente, um gesto de cuidado; permitia que a magia permanecesse intacta, mesmo que à distância, preservando aquele instante de encanto que pairava no ar.

O dia findou assim, leve e encantado, como uma brisa que se despede do verão. No coração, ficou a sensação de que algo, embora fugaz, havia deixado um rasto permanente — uma marca silenciosa, um eco de ternura e descoberta, que faria toda a diferença nos dias vindouros.


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