Silêncio entre livros
Sexta-feira, 14 de Maio de 1976
O dia decorreu com uma normalidade quase reconfortante. As aulas de manhã passaram sem sobressaltos; a ginástica trouxe o habitual cansaço físico, mas também uma estranha clareza mental. O corpo em movimento parecia libertar a mente de pensamentos dispersos, permitindo-me respirar mais fundo, ainda que por breves instantes.
Na biblioteca do liceu encontrei o meu refúgio. Entre prateleiras silenciosas, percorri autores portugueses, deixando os olhos vaguearem por títulos e nomes que prometiam viagens a mundos que ainda não conhecia. Sentei-me, respirei o cheiro dos livros, senti a calma que só a companhia de grandes mentes do passado consegue proporcionar. Por momentos, esqueci a pressa do tempo, a obrigação de dias preenchidos, o rumor de vozes lá fora.
Senti-me pequeno, mas ao mesmo tempo parte de algo maior, um diálogo silencioso com pensamentos que já haviam existido e que agora me tocavam de forma quase íntima. Cada livro que apontei para ler mais tarde tornou-se uma promessa, não apenas de leitura, mas de descoberta de mim próprio através do olhar de outros.
O resto do dia escorreu como água entre os dedos. Sem grandes acontecimentos, sem encontros marcantes, apenas o rasto do meu passar pelo tempo, suave e sem perturbação. Um dia comum, mas pleno, por ter sido vivido em presença daquilo que mais aprecio: a paz de um espaço meu, onde pensamentos podem existir sem pressa, sem olhares que interrogam.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »