Invisível é o ensaio geral do esquecimento

Quinta-feira, 13 de Maio de 1976

Foi mais um dia sem história. E quando digo sem história, digo-o sem desculpa nem dramatização: o tempo passou, eu passei com ele, e nada aconteceu que merecesse levantar a voz.

Mas à noite o céu decidiu falar.

O eclipse lunar começou devagar, sem alarde, como tudo o que é importante. A lua, inteira e segura de si, foi sendo comida pela sombra da Terra. Não houve resistência, não houve protesto. Apenas aceitação. Aquela luz fria, que nunca é dela mas que parece ser, foi-se apagando como se sempre tivesse sabido que aquele momento chegaria.

Vi-me ali.

Também eu ando assim: um corpo distante, a girar em silêncio, convencido de que brilha por conta própria, até algo maior decidir atravessar-se no caminho. Emoções eclipsadas. Espírito em penumbra. Um existir suspenso, sem força para evitar o que vem de fora e se impõe.

Não me sinto injustiçado. Sinto-me pequeno. E talvez seja isso que custa mais.

Durante alguns minutos, a lua desapareceu quase por completo. Não morreu — isso seria simples demais — apenas deixou de ser visível. Continua lá, claro. Mas invisível não conta para ninguém. Invisível é o ensaio geral do esquecimento.

Depois, lentamente, a sombra recuou. A luz voltou, tímida, como quem não quer prometer nada. Não houve aplausos no céu. Só continuidade.

Talvez seja assim comigo também. Talvez este eclipse não seja o fim, mas apenas um intervalo escuro entre duas formas de existir. Ou talvez não. A lua não explica nada. Limita-se a cumprir a sua órbita.

E eu, por hoje, fiz o mesmo.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »