Os pensamentos arrastam-se

Quarta-feira, 12 de Maio de 1976

O dia nasceu quente, indecente até. O ar colava-se à pele como um aviso e eu sentia o mesmo por dentro: um abafamento sem nome, uma pressão mansa mas persistente. A manhã avançou lenta, quase imóvel, e eu com ela, a arrastar pensamentos como quem arrasta cadeiras numa sala vazia.

O que ficou dos dias anteriores não desapareceu. Apenas baixou o tom. Tornou-se eco. Um desses ecos que não gritam, mas também não se calam. Lembram-nos, com uma honestidade cruel, que o futuro não nos deve nada. Não é herança, não é promessa. Aparece quando quer. Cabe-nos estender os braços… ou virar-lhe as costas. Não há manual de instruções. Nunca houve.

Passei a manhã nesse estado intermédio: nem esperança, nem desistência. Apenas consciência. E isso cansa mais do que parece.

Os meus amigos continuam por aqui, mesmo quando não são referidos. Estão nas margens do dia, nas pausas entre frases, nos silêncios que não explico. O diário pode não lhes dar palco, mas a vida dá-lhes estrada. E ninguém caminha verdadeiramente sozinho. Precisamos de outros passos para confirmar o nosso, de outras vozes para perceber quando erramos ou estamos no caminho certo.

Talvez por isso o calor aperte menos quando estou com eles. A amizade não resolve nada de forma espectacular, mas evita que tudo desabe. É pouco? Não. É essencial.

O dia seguiu, sem acontecimentos dignos de exclamação. Mas houve algo de sólido nele: a certeza de que, mesmo sufocado, continuo em marcha. E isso, hoje, bastou.


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